PSICOTERAPIA

Dizem: a casa é o lugar onde regressamos sempre. É o amor, a segurança, a calma. É o espaço íntimo onde sabemos – porque construímos com as mãos e o coração – o lugar de todas as coisas. A casa dos rituais, que nos devolvem o equilíbrio (o centro), a vontade, a sensação de pertença: os cheiros, o chá antes de dormir, ouvir música no banho, dançar em frente ao espelho. O coração também é casa. Tem rituais, que aprende com os dias. Aprende o amor (e o desamor), aprende as canções para a chuva e para o sol, aprende os lugares de calma, aprende o tempo da novidade necessária, aprende a conhecer, aprende a querer mais e a não querer, também.
Os dias e a vida estão em movimento e pedem-nos que estejamos em movimento (que nos relembra a felicidade de estarmos vivos e em permanente desenvolvimento), mas, por vezes, as mudanças são maiores do que os braços que as tentam apoiar. Por vezes, os caminhos que construímos tornam-se ruas estreitas – ou avenidas demasiado largas – onde o corpo parece não caber. Um inverno demasiado longo.
A psicoterapia surge como construção. A permanente construção de estar vivo e de, ao construir, promover o desenvolvimento. É o lugar seguro para voltar a casa, ao princípio das coisas – ao coração das coisas. Como quem, ao olhar de dentro, vê, de fora, a forma de construção de si próprio, da sua relação com os outros e com o mundo: pensa a função dos hábitos (o chá que, por exemplo, foi, tantas vezes, a única forma de manter o coração quente), a organização do lugar das coisas (e da forma de pensar – e sentir – sobre elas). Pode ser um caminho longo e doloroso. Todos sabemos: é difícil mudar de casa; e é difícil o regresso. Mas, por vezes, é condição necessária para abrir a porta e deixar a novidade entrar: construir novos caminhos, experimentar novas formas de Ser, novas formas de se relacionar consigo próprio, com os outros e com o mundo.
Uma perspectiva construtivista-desenvolvimental e psicodinâmica é a nossa grelha de leitura neste caminho.
Assumimos, pois, a prioridade e anterioridade estrutural da relação; ou seja, vemos a relação psicoterapêutica como um ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento e compreendemos que só no seio de uma relação segura, de total confiança com o psicólogo, se pode proceder a uma exploração e transformação do self.
Compreendemos ainda que a psicologia clínica é intersubjectiva – o encontro psicoterapêutico consiste na convergência de duas subjectividades (a do psicólogo e a do cliente) – e que é desta intersubjectividade, deste encontro, que resulta a compreensão e o insight. O encontro psicoterapêutico é, por isso, tal como qualquer outro encontro, único, especial e irreplicável.